Durante boa parte das últimas três décadas, consolidou-se uma convicção entre estrategistas e formuladores de políticas de defesa: a tecnologia havia concedido uma vantagem definitiva ao ataque. Mísseis de precisão, aeronaves furtivas, armas hipersônicas e enxames de drones pareciam anunciar uma nova era na qual nenhuma fortificação seria capaz de proteger cidades ou infraestruturas críticas. O futuro pertenceria à espada, não ao escudo.
A guerra na Ucrânia está desmontando essa certeza. A decisão anunciada nesta semana por dez países europeus, juntamente com a Ucrânia, de desenvolver o sistema antimísseis Freyja não representa apenas o surgimento de mais um equipamento militar. Trata-se de um sintoma de uma transformação mais profunda: o retorno da defesa como elemento central da estratégia. A Europa começa a reconstruir aquilo que, durante décadas, considerou desnecessário - um grande escudo tecnológico capaz de proteger seu território contra ataques de mísseis balísticos.
Na história militar, ofensiva e defensiva jamais permaneceram em equilíbrio por muito tempo. Quando uma delas parece alcançar supremacia absoluta, a outra responde com novas soluções. Foi assim quando as muralhas medievais obrigaram exércitos a aperfeiçoarem máquinas de cerco. Foi assim quando a artilharia renascentista tornou obsoletos os castelos feudais, levando engenheiros como Sébastien de Vauban a criar um novo sistema de fortificações capaz de resistir ao poder dos canhões. Séculos depois, a Linha Maginot simbolizou a tentativa francesa de deter uma guerra que já havia mudado de natureza. O problema não era a ideia de defender-se, mas preparar-se para combater a guerra anterior.
Durante a Guerra Fria, essa disputa ganhou uma dimensão inédita. Em 1983, Ronald Reagan lançou a Iniciativa de Defesa Estratégica, rapidamente apelidada de "Guerra nas Estrelas". O objetivo parecia quase ficção científica: construir um escudo capaz de interceptar mísseis nucleares soviéticos antes que atingissem o território americano. Embora o projeto jamais tenha sido plenamente concretizado, introduziu um conceito estratégico que hoje retorna com vigor: a superioridade militar depende não apenas da capacidade de destruir, mas também da capacidade de impedir que o inimigo destrua.
A guerra na Ucrânia devolveu essa questão ao centro do debate estratégico. Os ataques russos contra cidades, usinas de energia, centros logísticos e instalações industriais demonstraram que o alvo das guerras contemporâneas não é apenas o campo de batalha. A infraestrutura nacional tornou-se parte integrante da frente de combate. Defender uma refinaria, uma usina elétrica ou um centro de distribuição pode ser tão decisivo quanto conquistar uma posição no terreno.
Nesse contexto, sistemas como Patriot, SAMP/T, Iron Dome e, futuramente, o Freyja deixam de ser apenas equipamentos especializados para se converterem em componentes essenciais da soberania nacional. Um país incapaz de proteger seu espaço aéreo permanece vulnerável independentemente do tamanho de seu exército ou da qualidade de sua força aérea.
Há ainda uma dimensão econômica frequentemente negligenciada. As guerras modernas são travadas também nas linhas de produção. Interceptadores custam caro; mísseis balísticos custam ainda mais; drones relativamente baratos podem obrigar o adversário a consumir recursos muito superiores para neutralizá-los. O desafio deixa de ser exclusivamente tecnológico e passa a envolver capacidade industrial, logística e sustentabilidade financeira. Vence quem consegue manter seu escudo funcionando durante uma guerra prolongada.
O projeto Freyja revela que a Europa compreendeu essa mudança. Mais do que adquirir equipamentos, procura construir uma arquitetura integrada de defesa, compartilhando pesquisa, indústria, comando e produção. Não se trata apenas de proteger a Ucrânia. Trata-se de redesenhar a segurança do continente para um século em que a ameaça dos mísseis voltou a ser cotidiana.
Talvez esta seja a principal lição estratégica da guerra na Ucrânia. Durante anos acreditou-se que a tecnologia havia decretado a supremacia definitiva da ofensiva. A realidade mostrou algo diferente. A história militar continua obedecendo a uma antiga lógica: toda espada suficientemente poderosa acaba produzindo um escudo à sua altura. O anúncio do Freyja talvez marque precisamente esse momento, aquele em que a Europa reconhece que sua sobrevivência dependerá tanto da capacidade de atacar quanto da capacidade de proteger-se. A velha dialética entre espada e escudo, que acompanha a guerra desde as muralhas das primeiras cidades, está mais viva do que nunca.
Há livros que envelhecem. Há revistas que sobrevivem apenas
como documentos de uma época. E há aquelas raras publicações que, relidas
décadas depois, parecem guardar em suas páginas um sismógrafo das inquietações
profundas de uma geração. A revista Hera pertence a essa última
categoria. Lê-la hoje é descobrir que seus poetas falavam muito menos do
presente do que do futuro. Ou, mais precisamente, de um futuro que ainda não
havia acontecido, mas cuja aproximação parecia ser sentida como uma certeza
quase física.
Chama atenção a recorrência de um mesmo campo imagético.
Profetas, ventos, tempestades, dilúvios, jardins, manhãs, caminhos, estrelas
distantes, ruínas, flores que insistem em nascer. À primeira vista, tais
imagens poderiam ser tomadas como simples recursos expressivos, lugares-comuns
da tradição poética. Mas a repetição obstinada desses signos, distribuídos por
autores diversos, sugere outra possibilidade. Não estamos diante de coincidências
vocabulares. Eu vejo um imaginário compartilhado.
Talvez seja possível afirmar que a primeira geração de Hera
construiu aquilo que poderíamos chamar de uma imaginação profética. Não
no sentido religioso do termo, nem como exercício de adivinhação do futuro. O
profeta, antes de tudo, é aquele que interpreta o presente como sintoma de uma
ordem condenada. Seu olhar não repousa sobre o que existe, mas sobre aquilo que
está prestes a deixar de existir. É um homem que vive voltado para o porvir
porque perdeu a confiança no tempo em que lhe foi dado viver.
Essa postura aproxima, de forma curiosa, os poetas baianos da
antiga tradição dos profetas hebreus. Isaías, Jeremias ou Ezequiel não
anunciavam catástrofes por gosto do desastre. A destruição era concebida como
condição para uma regeneração futura. A queda de Jerusalém abria caminho para
uma Nova Aliança. O dilúvio precedia uma nova humanidade. O deserto antecedia a
Terra Prometida. A ruína nunca era o ponto final da história, mas o instante
necessário para seu recomeço.
Não parece fortuito que tantos poemas publicados em Hera
gravitem em torno dessa mesma estrutura simbólica. O vento deixa de ser
fenômeno meteorológico para converter-se em mensageiro. A tempestade
transforma-se em expectativa. O amanhã adquire estatuto de personagem. As
flores sobrevivem ao desabamento das casas. O jardim permanece de pé quando
tudo o mais parece condenado.
É tentador atribuir essa sensibilidade exclusivamente ao
contexto político da ditadura militar. Sem dúvida, ele está presente. Mas
talvez isso explique menos do que se imagina. Há um horizonte mais amplo
envolvendo aqueles jovens escritores. Eles pertenciam à primeira geração
formada inteiramente sob a sombra da Guerra Fria. Cresceram acompanhando crises
nucleares, guerras por procuração, golpes militares sucessivos, discursos sobre
o fim do mundo e uma permanente sensação de que a civilização caminhava sobre
terreno instável. O medo do apocalipse não era apenas religioso. Tornara-se
também político, tecnológico e existencial.
Não surpreende, portanto, que esse estado psicológico
coletivo tenha encontrado expressão por meio de símbolos muito mais antigos que
o próprio século XX. Quando uma cultura experimenta grandes inquietações,
costuma recorrer às imagens mais profundas de sua memória. Mitos não
desaparecem; apenas mudam de linguagem. Os antigos profetas retornam
disfarçados de poetas. O dilúvio converte-se em metáfora histórica. A Terra
Prometida reaparece sob a forma de um amanhã indefinido. A expectativa
messiânica sobrevive, mesmo quando Deus parece ter abandonado o poema.
O poeta Rubens Alves Pereira talvez represente a formulação
mais acabada dessa sensibilidade. Seus versos parecem incapazes de habitar o
presente. Caminham incessantemente em direção ao amanhã. Procuram uma manhã que
tarda, uma tempestade que ainda não chegou, um caminho que continua aberto para
além do horizonte visível. Sua poesia não celebra a realidade; aguarda sua
transformação. O poeta assume, assim, a antiga função do vidente: não prever
acontecimentos, mas conservar viva a esperança de que outra ordem do mundo
ainda seja possível.
Talvez resida aí uma das maiores singularidades da geração Hera.
Em vez de produzir uma poesia de militância imediata ou de simples confissão
autobiográfica, muitos de seus autores preferiram falar por símbolos, retomando
esquemas narrativos cuja origem remonta aos mitos fundadores da civilização
ocidental. Sob a superfície de seus poemas modernos continuam respirando os
velhos arquétipos do profeta, do peregrino, da tempestade purificadora e da
promessa de uma terra onde, enfim, as flores possam nascer mesmo depois que
todas as casas desabarem.
Durante muito tempo, a guerra na Ucrânia foi narrada quase
exclusivamente por mapas. A cada semana, discutia-se qual aldeia havia sido
conquistada, qual cidade resistia, qual linha de frente avançava alguns
quilômetros para leste ou para oeste. Era uma narrativa geográfica, construída
sobre o território. Mas talvez estejamos assistindo a uma mudança silenciosa e
muito mais profunda. O verdadeiro campo de batalha começa a deslocar-se dos mapas
para as refinarias.
Os relatórios mais recentes indicam que a Rússia enfrenta
dificuldades crescentes para atender à própria demanda interna de gasolina.
Refinarias importantes foram atingidas por ataques ucranianos de longo alcance,
a produção caiu, reservas estratégicas passaram a ser utilizadas, combustível
começou a ser importado da Bielorrússia e autoridades locais chegaram a
recomendar redução de deslocamentos para economizar gasolina.
À primeira vista, trata-se apenas de uma notícia econômica. Na
realidade, é uma notícia profundamente militar. Poucas substâncias possuem
tanto valor estratégico quanto o combustível. Exércitos modernos não marcham
apenas sobre o estômago, como dizia Napoleão; marcham, sobretudo, sobre
derivados de petróleo. Tanques, caminhões, aviões, helicópteros, geradores,
embarcações e toda a gigantesca máquina logística que sustenta uma guerra
dependem de um fluxo permanente de energia. Sem combustível, até o mais
poderoso dos exércitos transforma-se em um conjunto de equipamentos imóveis.
Talvez estejamos diante de uma das maiores transformações
estratégicas desta guerra. A Ucrânia parece ter compreendido que destruir um
depósito de combustível pode produzir efeitos militares superiores aos da
conquista de uma pequena localidade. Em vez de concentrar todos os esforços na
destruição de batalhões inimigos, passou a atacar aquilo que permite a esses
batalhões continuar existindo: refinarias, oleodutos, terminais petrolíferos,
subestações elétricas, centros logísticos e, mais recentemente, até
navios-tanque responsáveis pelo abastecimento da Crimeia ocupada. Essa mudança
não é apenas operacional. Ela altera a própria lógica da guerra.
Durante séculos, pensou-se que a vitória dependia da
destruição direta das forças inimigas ou da conquista de suas cidades. Hoje,
percebe-se que é possível reduzir significativamente a capacidade de combate de
um adversário sem ocupar um único quilômetro adicional de território. Basta
tornar cada vez mais difícil alimentar sua economia de guerra.
É a velha ideia do centro de gravidade, formulada por
Clausewitz, reinterpretada para o século XXI. O ponto decisivo já não é
necessariamente uma fortaleza, uma capital ou uma grande batalha campal. Pode
ser uma refinaria situada a centenas de quilômetros da linha de frente. Pode
ser uma subestação elétrica. Pode ser um terminal de armazenamento de
combustíveis. O objetivo deixa de ser apenas destruir tropas; passa a ser
corroer, lentamente, a capacidade material que permite a continuidade das
operações militares.
Essa lógica, aliás, possui precedentes históricos. Na Segunda
Guerra Mundial, os bombardeios aliados contra as instalações petrolíferas de
Ploie?ti, na Romênia, buscavam precisamente reduzir a capacidade operacional da
máquina militar alemã. A diferença é que, oitenta anos depois, essa missão pode
ser realizada por enxames de drones relativamente baratos, capazes de atingir
alvos situados a centenas ou até mais de mil quilômetros de distância.
A consequência é que a guerra deixa de possuir uma única
frente. O campo de batalha torna-se difuso, profundo e nacional. Um incêndio em
uma refinaria distante pode produzir efeitos tão relevantes quanto um combate
nas trincheiras do Donbass. O motorista que encontra um posto sem combustível,
o caminhoneiro que enfrenta restrições de abastecimento e a indústria obrigada
a reduzir sua produção também passam a integrar, ainda que involuntariamente, a
equação estratégica do conflito.
Talvez esta seja a principal lição da guerra na Ucrânia em 2026. O mapa continua importante, mas já não conta toda a história. As batalhas decisivas podem estar ocorrendo longe das trincheiras, onde não se disputam cidades, mas a energia que mantém um país em guerra. No século XXI, quem controla a produção, o transporte e a distribuição de combustível não controla apenas a economia. Controla, cada vez mais, o ritmo da própria guerra.
Há uma imagem profundamente enganosa da guerra que insiste em
sobreviver no imaginário contemporâneo. Ela é feita de explosões, blindados em
movimento, caças rompendo a barreira do som e soldados avançando sob fogo
inimigo. É a guerra vista da linha de frente. Mas essa imagem, embora
espetacular, talvez seja apenas a superfície do fenômeno. As guerras não são
vencidas apenas onde se combate. Muitas vezes, elas são decididas muito antes
de o primeiro tiro ser disparado.
O recente debate sobre a reorganização da OTAN oferece um
exemplo eloquente dessa transformação. O centro das preocupações da Aliança
Atlântica não está apenas na distribuição de tropas ao longo de suas três
grandes frentes operacionais. Está, sobretudo, naquilo que existe atrás delas:
portos capazes de receber reforços, ferrovias aptas a transportar blindados,
rodovias que suportem colunas logísticas, depósitos de munição, hospitais
militares, centros de manutenção, autorizações diplomáticas para o trânsito de
tropas e uma complexa infraestrutura civil sem a qual nenhum exército permanece
em combate.
Essa constatação obriga-nos a rever uma velha ilusão. A
guerra moderna não é apenas um confronto entre exércitos. É também uma
competição entre sistemas logísticos.
Não se trata de uma novidade absoluta. Alexandre, César e
Napoleão já sabiam que um exército marchava sobre suas linhas de abastecimento
tanto quanto sobre as pernas de seus soldados. A diferença é que, no século
XXI, a retaguarda deixou de ser apenas um espaço de apoio para tornar-se um
verdadeiro campo de batalha. O alvo prioritário já não é somente a divisão
inimiga, mas a ferrovia que a abastece, o porto que a recebe, a ponte que
garante sua mobilidade, a rede elétrica que sustenta seus centros de comando.
Talvez por isso a guerra na Ucrânia tenha produzido uma das
maiores lições estratégicas de nosso tempo. Muito antes da conquista de
cidades, ambos os lados empenharam-se em destruir depósitos de munição, centros
ferroviários, refinarias, pontes e instalações energéticas. O objetivo era
simples: transformar a retaguarda adversária em um território incapaz de
sustentar a frente de combate.
Essa lógica representa uma mudança intelectual importante.
Durante muito tempo, a estratégia concentrou-se na destruição das forças inimigas.
Hoje, cresce a percepção de que um exército pode ser derrotado sem que suas
principais unidades sejam aniquiladas. Basta que deixem de receber combustível,
munição, peças de reposição ou reforços. A vitória pode nascer não da
superioridade tática, mas do colapso silencioso da sustentação.
Clausewitz escreveu que tudo na guerra é simples, mas o
simples é difícil. A logística talvez seja a expressão mais perfeita desse
paradoxo. Nada parece menos heroico do que organizar comboios, reparar
locomotivas ou coordenar autorizações alfandegárias. Entretanto, sem essas
atividades aparentemente prosaicas, o heroísmo da linha de frente converte-se
rapidamente em impotência.
Existe ainda uma dimensão política frequentemente ignorada.
Nas alianças militares contemporâneas, mover uma brigada exige mais do que
combustível. Exige decisões soberanas de diferentes governos, integração entre
administrações civis, compatibilidade de normas nacionais e uma coordenação
multinacional de enorme complexidade. A guerra deixa de ser apenas um problema
militar para tornar-se um gigantesco exercício de governança.
No fundo, a história parece retornar a uma verdade antiga. Os
grandes generais sempre compreenderam que o campo de batalha começa muito antes
das trincheiras. Começa nos portos onde desembarcam os reforços, nas estradas
por onde seguem os caminhões, nas oficinas onde se recuperam os blindados, nos
hospitais que devolvem soldados ao combate e nos depósitos que alimentam, dia
após dia, a capacidade de resistir.
As batalhas continuam a decidir quem vence um combate. Mas são as retaguardas que decidem quem permanece capaz de lutar. Talvez a guerra contemporânea nos ensine, com uma clareza desconcertante, que a verdadeira linha de frente está, paradoxalmente, muito atrás dela.
Há uma imagem que costuma dominar o imaginário quando se fala no Estreito de Ormuz: a de uma passagem completamente fechada, navios imobilizados e o comércio mundial subitamente interrompido. Essa imagem, embora dramática, talvez seja também enganosa. Ela nos leva a pensar que controlar um estreito significa necessariamente bloqueá-lo. A estratégia iraniana parece sugerir justamente o contrário.
Talvez não seja preciso fechar Ormuz para dominá-lo. Basta
convencer o mundo de que ele pode ser fechado a qualquer momento. Essa
distinção é decisiva. Ela marca a passagem de uma lógica territorial para uma
lógica psicológica. O objetivo deixa de ser impedir fisicamente a navegação e
passa a ser instalar a incerteza como elemento permanente da circulação
marítima. O espaço continua aberto; o medo, porém, funciona como uma barreira
invisível. Trata-se de uma forma sofisticada de poder.
Na tradição clássica da guerra, o domínio era exercido pela
ocupação. Conquistava-se uma fortaleza, um porto, uma cidade ou uma montanha. O
controle decorria da presença física. Hoje, em muitos casos, basta produzir
risco suficiente para que o próprio adversário altere seu comportamento. A
coerção substitui a ocupação.
O Estreito de Ormuz oferece um exemplo quase perfeito dessa
transformação. Não é necessário afundar dezenas de petroleiros. Não é preciso
interromper totalmente o fluxo de petróleo. Alguns ataques seletivos, algumas
embarcações atingidas e uma sucessão de alertas de segurança já bastam para
produzir efeitos econômicos de enorme alcance. O prêmio dos seguros marítimos
aumenta. Armadores reconsideram rotas. Empresas calculam novos custos. Mercados
reagem em questão de minutos. O preço do petróleo incorpora um "prêmio de
risco" antes mesmo que ocorra qualquer interrupção efetiva do
abastecimento.
A economia contemporânea é extraordinariamente sensível à
percepção de insegurança.Nesse sentido, um míssil nem sempre destrói um navio;
muitas vezes destrói a confiança. E, em um sistema global baseado na
previsibilidade das cadeias logísticas, a confiança tornou-se um ativo tão
importante quanto a própria infraestrutura.
Essa talvez seja uma das maiores lições estratégicas do
século XXI: impedir pode valer mais do que ocupar. A ideia não é nova. Durante
a Guerra Fria, Thomas Schelling mostrou que o poder moderno frequentemente
reside menos no uso da força do que na capacidade de influenciar decisões por
meio da ameaça de empregá-la. O objetivo não é vencer uma batalha, mas
modificar cálculos. Não é destruir o adversário, mas obrigá-lo a agir como se a
destruição fosse sempre uma possibilidade concreta.
O Irã parece compreender perfeitamente essa lógica. Ao manter
a possibilidade permanente de ataques no estreito, cria uma atmosfera de
instabilidade que amplia seu peso político muito além de sua força material.
Não controla todas as águas de Ormuz. Tampouco possui uma marinha capaz de
enfrentar diretamente as grandes potências navais. Ainda assim, consegue
transformar um corredor marítimo internacional em um espaço de permanente
tensão estratégica.
Há nisso uma inversão interessante. Durante séculos, o poder
marítimo foi medido pelo número de navios capazes de garantir a liberdade de
navegação. Hoje, em determinados contextos, ele pode ser medido pela capacidade
de tornar essa liberdade permanentemente incerta.
No fundo, o que está em disputa não é apenas um estreito, mas
uma ideia de poder. A geopolítica contemporânea demonstra, cada vez mais, que
controlar um espaço não significa necessariamente ocupá-lo. Em certos casos,
basta convencer todos os demais de que atravessá-lo sempre envolverá um risco
intolerável.
O domínio deixa então de repousar sobre a posse do território
e passa a repousar sobre o controle das expectativas. A verdadeira fronteira já
não é desenhada nos mapas, mas na mente daqueles que precisam decidir se vale a
pena seguir adiante. É nesse ponto que a guerra deixa de ser apenas um
confronto de forças e se transforma, sobretudo, em uma disputa pela
administração do medo.