Faltam menos de 90 dias para a realização das eleições presidenciais. Tudo bem que a Copa do Mundo está aí na praça e os festejos juninos – no Nordeste – acabaram há pouco. No Sul/Sudeste, vive-se o tradicional período de férias, inclusive escolares. Mas nada disso é justificativa para o deserto de ideias que, mais uma vez, marca as eleições presidenciais brasileiras. Reitere-se: faltam menos de três meses para o eleitor se debruçar sobre a urna eletrônica.
Desafios regionais, nacionais e globais não faltam. Antigos problemas permanecem à espera de soluções que não são, sequer, discutidas. Questões inéditas vão surgindo, produzindo contundentes efeitos sobre a realidade, mas não são incorporadas à agenda política, menos ainda à das políticas públicas. Agenda de desenvolvimento, então, tornou-se luxo, despropósito em tempos de ultraliberalismo hidrófobo.
Observe-se que o mundo anda de pernas para o ar. O multilateralismo é posto em xeque por um combo de nacionalismos xenófobos, totalitários, beligerantes, teocêntricos, irracionais. Junto com o multilateralismo, afunda a outrora festejada globalização. Com ela, rui o liberalismo tradicional – o famigerado neoliberalismo -, que cede espaço a um pseudo ultraliberalismo fundamentalista, inconsequente.
Nos Estados Unidos, um presidente visivelmente senil invade países, começa guerras e não consegue encerrá-las, saqueia, pirateia, produz instabilidades que – queiram ou não – afetam a economia mundial com incertezas em profusão, além de mortes injustificáveis. Agora, volta-se suas atenções para o Brasil, manifestando nítida simpatia por um candidato – Flávio Bolsonaro, o filho do “mito” – e operando tarifas como instrumento de pressão sobre os brasileiros.
Para além do cenário, há urgências incontáveis. Como lidar e mitigar os efeitos das mudanças climáticas, por exemplo? De que maneira o País vai conviver com as avassaladoras transformações provocadas pelos avanços tecnológicos, particularmente a Inteligência Artificial? Quando a Educação Básica vai se tornar prioridade, de fato? E os desafios colocados para a Saúde em uma nação que envelhece aceleradamente? Enfim, há muitas urgências.
De imediato, há problemas fiscais que não poderão ser retardados por muito mais tempo. Como se distribuirá um eventual ajuste? Quais segmentos da sociedade arcarão com o ônus maior? Presidente do Brasil e pré-candidato à reeleição, Lula (PT) desconversa ou tangencia o tema. E Flávio Bolsonaro? Afora livrar o pai da condenação por tentativa de Golpe de Estado, não tem uma mísera proposta consistente.
A questão fiscal ganhou um quê de polarização, junto com a pauta de costumes. De um lado, alinham-se alguns que acreditam que os governos podem gastar como se não houvesse amanhã; do outro lado, estão impenitentes fiscalistas que desejam despejar o peso do ajuste sobre os ombros dos mais pobres. Trava-se, então, um disputa renhida, onde sensatez é artigo raro.
Com os juros estratosféricos, o Brasil torra mais de um trilhão de reais todo ano rolando dívida. A redução do déficit produziria indiscutíveis efeitos benéficos, reduzindo as taxas de juros. Mas sobre quem recairia o ônus da redução das despesas? A questão, aí, deixa de ser técnica, para transitar pelo pantanoso solo da economia política. Mas é algo que vai ter que se enfrentado logo à frente.
Afora todos os outros problemas...
Em texto anterior tratou-se, neste espaço, da situação da mulher no mercado de trabalho na Feira de Santana. As informações apresentadas foram do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Retoma-se o tema, abordando novas informações do rico acervo levantado pela instituição, que está acessível à população e, sobretudo, àqueles que formulam políticas públicas, no geral, e à classe política, em particular.
Resgatando uma informação fundamental do texto mencionado, mostrou-se que, na média, as mulheres são mais qualificadas, mas contam com salários menores que os dos homens. Pois bem: a média geral na Princesa do Sertão, para elas, correspondia a R$ 1.889,04 em 2022; para os homens, alcançava R$ 2.386,38. O salário médio delas, portanto, correspondia a 79,15% dos rendimentos masculinos.
Indiscutivelmente os homens também tem mais acesso ao mercado de trabalho. Entre eles, 60,2% estavam ocupados e 39,8% não; já entre as mulheres a taxa está praticamente invertida: 41,3% delas tem ocupação e 58,7% não. O IBGE considerou, no levantamento, pessoas com 10 anos ou mais de idade.
As mulheres com deficiência, por sua vez, enfrentam muito mais obstáculos na Princesa do Sertão. Em termos de escolarização, 59,3% delas não tem instrução ou apenas o nível fundamental incompleto; 11,4% tem fundamental completo e médio incompleto; 23,6% concluíram o ensino médio, mas não o ensino superior; e somente 5,6% têm superior completo. Para efeito de comparação, 25,7% das mulheres sem deficiência não tem nível fundamental completo e 20,1% dispõem de nível superior concluído.
Mulheres com deficiência costumam viver menos com companheiros que as pessoas sem deficiência e, até mesmo, que os homens com deficiência. Entre eles, 55,7% convivem e, entre elas, 36,1%. Entre pessoas sem deficiência, 59,5% dos homens e 50,4% das mulheres convivem com companheiros.
Os números mostram, portanto, que a condição de pessoa com deficiência, sem companheiro(a), alcança muito mais mulheres do que homens. Entre eles, a propósito, a diferença é de discretos 3,8% entre quem tem e quem não tem deficiência.
Uma dificuldade geral, que afeta mais as mulheres, é a responsabilidade de liderarem sozinhas, sem cônjuge, lares com filhos e/ou enteados. Na Feira de Santana, em lares com essa situação, a responsabilidade recai sobre as mulheres em 89,8% dos casos e sobre apenas 10,2% dos homens. Cenário muito mais confortável para os homens, destaque-se.
Como se disse acima, os números apurados no Censo 2022 oferecem farta sinalização para a elaboração de políticas públicas. Indicam questões a serem resolvidas e, de quebra, públicos-alvo a serem contemplados, reduzindo desigualdades. Chega a ser irônico que, a despeito da volumosa disponibilidade de informações, o debate político é rasteiro, estéril e direcionado pela gritaria dos trogloditas...
Há décadas se comenta, no Brasil, sobre o acesso desigual de mulheres ao mercado de trabalho. Na média, elas possuem maior escolaridade, mas ganham menos que os homens e costumam estar menos presentes em funções de chefia e em cargos mais prestigiosos. A realidade que se verifica em nível de País também está presente na Feira de Santana. As informações foram extraídas do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.
A taxa de frequência escolar por sexo e grupo de idade é mais ou menos homogênea até a faixa etária de 15 a 17 anos. O ápice da frequência – em ambos os sexos – se dá entre os 6 e os 14 anos, que é acima de 97%; depois, declina para 85% entre os 15 e os 17 anos, também em relação a ambos os sexos.
A diferença começa na faixa dos 18 aos 24 anos: 33,4% das mulheres permanecem estudando, enquanto apenas 28,3% dos homens continuam na sala de aula. Entre quem tem mais de 25 anos a diferença diminui, mas elas seguem à frente: 6,8% a 5,6%. A persistência feminina nos estudos se reflete na maior escolaridade de gênero.
Cerca de 60% das mulheres feirenses com idade superior a 18 anos possui, pelo menos, 11 anos de estudo. Elas se dividem entre quem tem nível superior (17%) e médio completo ou superior incompleto (42,8%). São mais de 150 mil mulheres, segundo o Censo 2022. Outras 34,7 mil (13,6%) tem fundamental completo e médio incompleto e 67,5 mil (26,5%) não concluíram o fundamental ou não foram alfabetizadas.
Os homens com mais de 11 anos de estudo, por sua vez, pouco ultrapassam os 50% entre aqueles com 18 anos ou mais de idade: 11,3% possuem o superior completo e outros 40,2% completaram o ensino médio e/ou não concluíram o superior. Isso corresponde a cerca de 104 mil homens. Com o fundamental completo ou com ensino médio incompleto eles somam 16,3% (34,5 mil) e sem instrução ou com fundamental incompleto eles totalizam 67,8 mil ou 32,1%.
Mais numerosas, as mulheres possuem nível de escolaridade mais elevado que os homens, conforme os números atestam. Mas recebem remuneração, percentualmente, menor que as dos homens. Existe uma única exceção: mulheres militares, cujos ganhos somam 143,2% da remuneração masculina. Na categoria do IBGE, enquadram-se militares de todas as forças, incluindo bombeiros.
Na média total, as mulheres recebem apenas 79,1% da remuneração dos homens. Quando se analisa por categoria, o cenário se repete: emprego no setor privado (84,3%), trabalho doméstico (94,1%), setor público (73,8%), empresas estatais (77,7%) empregador (76,3%) ou conta própria (74,2%) remuneram as mulheres, invariavelmente, de maneira desfavorável em relação aos homens, como se vê.
O que explica as mulheres mais bem remuneradas no setor militar? Provavelmente patentes mais elevadas e quantidade feminina menor no segmento. Mais isso precisa de verificação empírica. Nos demais segmentos, verifica-se o padrão que atravessa décadas com avanços relativos muito lentos, mesmo com as mulheres obtendo qualificação crescente.
Em suma, o mercado de trabalho na Feira de Santana espelha a mesma discrepância de remuneração entre os sexos, observável no Brasil...
O domingo de futebol não foi de todo perdido para a Feira de Santana. O trágico jogo da Seleção Brasileira pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo ofuscou um feito do esporte local: o tradicional Fluminense de Feira e o novato Feira Futebol Clube classificaram-se para as semifinais do Campeonato Baiano da Série B e vão se enfrentar para definir quem decide o título e – o mais importante – quem disputa a Série A do Campeonato Baiano de 2027.
Para quem aguardava classificação da Seleção Brasileira e – quem sabe – título mundial mais à frente, é pouco, muito pouco. Mas é o primeiro passo para o futebol local se reposicionar no cenário baiano, já que o Bahia de Feira amargou o rebaixamento este ano e a Princesa do Sertão corria o risco de ficar sem representante ano que vem na elite do Campeonato Baiano.
Primeiro colocado e com campanha quase irretocável, o Fluminense de Feira terminou a fase classificatória em primeiro, empatando ontem com o Vitória da Conquista em 2 a 2 e decide a vaga na final em casa. O Feira obteve o quarto lugar e, por esta razão, enfrenta o Touro do Sertão. Ontem, o time venceu o Jacobina por 5 a 0. Barreiras e SSA fazem a outra semifinal.
As equipes já se enfrentaram nesta Série B do Baianão. Em jogo realizado na Arena Cajueiro, o Feira saiu na frente no primeiro tempo mas, na etapa final, o Fluminense virou, vencendo por 2 a 1. Tudo indica que os dois jogos serão equilibrados, embora o Touro do Sertão ostente indiscutível favoritismo, até pela campanha mais robusta.
Retornar à elite do futebol baiano, para o Fluminense, significa o primeiro passo para se reinserir no cenário esportivo nacional. Embora curto, o Campeonato Baiano pode garantir vaga na Série D do Brasileiro e, eventualmente, vaga na Copa do Brasil, o que assegura alguma visibilidade para que os clubes pequenos que a disputam. Algo indispensável para uma equipe que pretende se reerguer, agora sob o controle de um grupo privado.
O Feira, por sua vez, foi fundado ano passado e estreou com muito estardalhaço na Série B. Conta também com gestão privada. Faz uma campanha satisfatória e não é impossível que surpreenda o Fluminense nas semifinais. É que, mesmo com campanhas razoáveis, o Touro do Sertão tropeçou duas vezes nas semifinais da Série B nos anos anteriores.
Sim, a Copa do Mundo mais uma vez terminou com lamentações e lágrimas de tristeza para a torcida brasileira. Rotina que completou 24 anos e vai se prolongar até o próximo mundial. Mas, para o futebol feirense, o domingo foi de felicidade.