Há livros que envelhecem. Há revistas que sobrevivem apenas
como documentos de uma época. E há aquelas raras publicações que, relidas
décadas depois, parecem guardar em suas páginas um sismógrafo das inquietações
profundas de uma geração. A revista Hera pertence a essa última
categoria. Lê-la hoje é descobrir que seus poetas falavam muito menos do
presente do que do futuro. Ou, mais precisamente, de um futuro que ainda não
havia acontecido, mas cuja aproximação parecia ser sentida como uma certeza
quase física.
Chama atenção a recorrência de um mesmo campo imagético.
Profetas, ventos, tempestades, dilúvios, jardins, manhãs, caminhos, estrelas
distantes, ruínas, flores que insistem em nascer. À primeira vista, tais
imagens poderiam ser tomadas como simples recursos expressivos, lugares-comuns
da tradição poética. Mas a repetição obstinada desses signos, distribuídos por
autores diversos, sugere outra possibilidade. Não estamos diante de coincidências
vocabulares. Eu vejo um imaginário compartilhado.
Talvez seja possível afirmar que a primeira geração de Hera
construiu aquilo que poderíamos chamar de uma imaginação profética. Não
no sentido religioso do termo, nem como exercício de adivinhação do futuro. O
profeta, antes de tudo, é aquele que interpreta o presente como sintoma de uma
ordem condenada. Seu olhar não repousa sobre o que existe, mas sobre aquilo que
está prestes a deixar de existir. É um homem que vive voltado para o porvir
porque perdeu a confiança no tempo em que lhe foi dado viver.
Essa postura aproxima, de forma curiosa, os poetas baianos da
antiga tradição dos profetas hebreus. Isaías, Jeremias ou Ezequiel não
anunciavam catástrofes por gosto do desastre. A destruição era concebida como
condição para uma regeneração futura. A queda de Jerusalém abria caminho para
uma Nova Aliança. O dilúvio precedia uma nova humanidade. O deserto antecedia a
Terra Prometida. A ruína nunca era o ponto final da história, mas o instante
necessário para seu recomeço.
Não parece fortuito que tantos poemas publicados em Hera
gravitem em torno dessa mesma estrutura simbólica. O vento deixa de ser
fenômeno meteorológico para converter-se em mensageiro. A tempestade
transforma-se em expectativa. O amanhã adquire estatuto de personagem. As
flores sobrevivem ao desabamento das casas. O jardim permanece de pé quando
tudo o mais parece condenado.
É tentador atribuir essa sensibilidade exclusivamente ao
contexto político da ditadura militar. Sem dúvida, ele está presente. Mas
talvez isso explique menos do que se imagina. Há um horizonte mais amplo
envolvendo aqueles jovens escritores. Eles pertenciam à primeira geração
formada inteiramente sob a sombra da Guerra Fria. Cresceram acompanhando crises
nucleares, guerras por procuração, golpes militares sucessivos, discursos sobre
o fim do mundo e uma permanente sensação de que a civilização caminhava sobre
terreno instável. O medo do apocalipse não era apenas religioso. Tornara-se
também político, tecnológico e existencial.
Não surpreende, portanto, que esse estado psicológico
coletivo tenha encontrado expressão por meio de símbolos muito mais antigos que
o próprio século XX. Quando uma cultura experimenta grandes inquietações,
costuma recorrer às imagens mais profundas de sua memória. Mitos não
desaparecem; apenas mudam de linguagem. Os antigos profetas retornam
disfarçados de poetas. O dilúvio converte-se em metáfora histórica. A Terra
Prometida reaparece sob a forma de um amanhã indefinido. A expectativa
messiânica sobrevive, mesmo quando Deus parece ter abandonado o poema.
O poeta Rubens Alves Pereira talvez represente a formulação
mais acabada dessa sensibilidade. Seus versos parecem incapazes de habitar o
presente. Caminham incessantemente em direção ao amanhã. Procuram uma manhã que
tarda, uma tempestade que ainda não chegou, um caminho que continua aberto para
além do horizonte visível. Sua poesia não celebra a realidade; aguarda sua
transformação. O poeta assume, assim, a antiga função do vidente: não prever
acontecimentos, mas conservar viva a esperança de que outra ordem do mundo
ainda seja possível.
Talvez resida aí uma das maiores singularidades da geração Hera.
Em vez de produzir uma poesia de militância imediata ou de simples confissão
autobiográfica, muitos de seus autores preferiram falar por símbolos, retomando
esquemas narrativos cuja origem remonta aos mitos fundadores da civilização
ocidental. Sob a superfície de seus poemas modernos continuam respirando os
velhos arquétipos do profeta, do peregrino, da tempestade purificadora e da
promessa de uma terra onde, enfim, as flores possam nascer mesmo depois que
todas as casas desabarem.