Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo e que, talvez,
diga mais sobre a literatura contemporânea do que muitos tratados de teoria:
ainda existem escritores que acreditam na vida?
A pergunta parece estranha. Afinal, toda literatura não nasce
da vida? Em princípio, sim. Mas basta observar a paisagem intelectual do nosso
tempo para perceber que, pouco a pouco, fomos aprendendo a substituir a
experiência pelas explicações. Já não vivemos primeiro para depois compreender;
desejamos compreender antes mesmo de viver. A realidade tornou-se um apêndice
das teorias. Tudo precisa caber numa categoria, numa doutrina, numa identidade,
numa causa. O mundo converteu-se em comentário de si mesmo.
É justamente nesse ponto que a poesia de Antonio Gabriel
Evangelista me parece adquirir uma inesperada atualidade. Entre os poetas ligados
à revista Hera, Gabriel talvez seja aquele que mais profundamente
desconfia das grandes construções explicativas. Não porque despreze o
pensamento. Ao contrário, sua poesia é inteligente demais para se deixar
seduzir por qualquer simplificação. O que ela recusa é outra coisa: a pretensão
de substituir a vida por um sistema de interpretação da vida.
Há um pequeno poema seu que sempre me impressionou. Um homem,
em vez de ir ao campo aprender sobre a natureza, refugia-se numa biblioteca –
"como fazem as pessoas de bom senso". O desfecho é devastador em sua
simplicidade: acaba devorado pelas traças. A ironia é evidente, mas o alvo não
é o livro. Tampouco a cultura. O que está sendo ridicularizado é o velho
equívoco de acreditar que o conhecimento possa substituir a experiência.
Em outro poema, um padre procura, inutilmente, a chave do
sacrário. A imagem possui uma força quase vicentina. O sacerdote, reduzido à
repetição mecânica de um rito, parece ter perdido, justamente, aquilo que o
rito deveria preservar: o contato vivo com o mistério. Não se trata de uma
crítica à religião, mas de algo mais profundo. Gabriel parece desconfiar de
toda forma de existência que renuncie ao mundo em nome de alguma promessa
situada além dele.
Essa desconfiança reaparece diante da propaganda, das
ideologias e até das ameaças da história. Seus poemas sobre a Guerra Fria não
procuram oferecer respostas nem construir utopias. Também não se refugiam no
pessimismo paralisante. Permanecem acordados. Recusam o "sono
forçado" anunciado pelos alto-falantes do mundo. Há, nisso, uma ética
discreta, talvez a mais difícil de todas: permanecer desperto quando todos os
discursos convidam ao entorpecimento.
Penso, às vezes, que essa seja uma das vocações mais antigas
da poesia. Não explicar a existência, mas devolvê-la à sua espessura.
Recordar-nos de que viver é sempre mais complexo do que qualquer interpretação
sobre a vida.
Talvez por isso Antonio Gabriel ocupe um lugar singular na
poesia baiana contemporânea. Sua obra não celebra heróis, nem profetas, nem
intelectuais iluminados. Tampouco cultiva a figura romântica do poeta como
sacerdote de verdades superiores. Seu olhar prefere as margens, os homens
comuns, os instantes aparentemente insignificantes, onde a existência continua
acontecendo sem pedir licença às teorias.
Há, sob muitos de seus versos, um paganismo discreto – não no
sentido religioso da palavra, mas como disposição espiritual. Uma confiança
obstinada de que o mundo, apesar de sua desordem, ainda merece ser
experimentado antes de ser julgado. Antes de procurar respostas definitivas,
convém caminhar por ele.
Vivemos numa época curiosa. Nunca produzimos tantas
interpretações sobre a realidade e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos
experimentado tão pouco o real. Multiplicam-se especialistas em explicar o
homem, enquanto diminui o número daqueles que simplesmente se dispõem a
conhecê-lo.
É por isso que volto à pergunta inicial. Quem ainda acredita
na vida? Suspeito que Antonio Gabriel esteja entre esses poucos. Não porque
imagine o mundo melhor do que ele é. Sua poesia conhece a guerra, a morte, o
desencanto e a solidão. Mas porque continua recusando a troca mais perigosa que
uma civilização pode fazer: abandonar a experiência concreta da existência em
favor de alguma teoria destinada a explicá-la.
E, talvez, seja exatamente essa a tarefa silenciosa da grande
poesia: lembrar-nos de que nenhuma ideia, por mais sedutora que pareça, vale o
preço de perdermos o mundo enquanto ele ainda acontece.
As cenas que vi em um canal de TV europeu me convenceram que
há um equívoco recorrente em nossa compreensão dos funerais de grandes líderes
políticos. Costumamos vê-los como cerimônias de despedida, expressão coletiva
de dor ou homenagem à trajetória de um indivíduo. A História, porém, ensina
que, quando o morto é um chefe de Estado, um fundador de regime ou um líder
religioso de alcance nacional, o funeral deixa de pertencer à esfera privada.
Ele se transforma em um acontecimento político. Mais do que lamentar uma
ausência, procura afirmar uma permanência.
As cerimônias organizadas pelo Irã para o aiatolá Ali
Khamenei ilustram, com clareza, essa lógica. O governo anuncia milhões de
participantes; mobiliza o aparato estatal; fecha repartições públicas;
reorganiza o trânsito; restringe o espaço aéreo; e transforma o cortejo em um
evento de vários dias, que atravessa cidades, fronteiras e importantes centros
religiosos do xiismo. Não se trata apenas de honrar um líder morto. Trata-se de
comunicar uma mensagem aos vivos.
Todo grande funeral é uma linguagem do poder. Essa percepção acompanha a história
das civilizações. Quando Alexandre, o Grande, morreu, na Babilônia, iniciou-se
uma disputa feroz pela posse de seu corpo. Não era uma questão sentimental.
Quem controlasse os restos mortais do conquistador reivindicaria, também, parte
de sua legitimidade. O cadáver tornou-se objeto de geopolítica.
Roma compreendeu, igualmente, essa força simbólica. O funeral
de Júlio César não apenas encerrou a vida de um ditador; ajudou a incendiar a
cidade e acelerou o colapso da República. A morte, cuidadosamente ritualizada,
produziu efeitos políticos que o homem vivo, talvez, já não conseguisse
alcançar.
Os séculos apenas sofisticaram esse mecanismo. O traslado das
cinzas de Napoleão para Paris, em 1840, foi concebido para restaurar parte do
prestígio nacional francês. O corpo de Lênin, preservado em um mausoléu,
converteu-se em instrumento permanente de legitimação do Estado soviético. O
funeral de Gamal Abdel Nasser reuniu multidões, que transformaram sua despedida
em manifestação de identidade árabe. Em 1989, milhões acompanharam o cortejo do
aiatolá Ruhollah Khomeini, num espetáculo que reafirmava a continuidade da
Revolução Islâmica, mesmo diante da perda de seu fundador.
Não é casual que regimes fortemente centralizados atribuam
enorme importância a esses rituais. A morte de um líder produz, inevitavelmente,
uma pergunta silenciosa: o poder sobreviverá ao homem que o encarnava? O
funeral procura responder antes mesmo que a dúvida se espalhe.
Assistindo as cenas do funeral de Khamenei, percebi que nada
ali era improvisado. O percurso do cortejo, a ordem das autoridades, os
símbolos religiosos, as bandeiras, a cobertura da imprensa, a presença de chefes
de Estado estrangeiros, a coreografia das multidões e até o tempo concedido
para que cada pessoa passe diante do caixão obedecem a uma lógica
cuidadosamente construída. O objetivo não é, apenas, organizar uma cerimônia. É
organizar uma narrativa.
A multidão desempenha papel central nessa dramaturgia
política. Sua presença comunica que o Estado continua capaz de mobilizar a
sociedade; seu silêncio transmite solenidade; sua emoção sugere unidade
nacional. Independentemente da espontaneidade ou do grau de participação
induzida, a imagem produzida é sempre dirigida a diferentes públicos: à
população interna, aos adversários políticos e à comunidade internacional.
Nesse sentido, funerais de Estado são menos voltados para o
passado do que para o futuro. Eles não procuram apenas recordar quem morreu.
Procuram estabilizar aquilo que permanece. Enquanto a biografia do líder se
encerra, a biografia do regime precisa continuar.
É por isso que a História Militar e a história política
raramente tratam esses eventos como simples cerimônias fúnebres. O
desaparecimento de um governante sempre representa um momento de
vulnerabilidade. Exatamente por isso, o poder procura converter a perda em
demonstração de continuidade. O ritual substitui a incerteza por ordem; a
emoção coletiva procura neutralizar especulações sobre sucessão, crise ou
fragmentação.
Talvez, essa seja a verdadeira função dos grandes funerais
políticos. Eles não existem apenas para sepultar um homem. Existem para
impedir que, junto com ele, seja enterrada a autoridade do Estado. Porque
os regimes compreendem uma verdade antiga: líderes morrem; instituições
sobrevivem somente quando conseguem convencer a sociedade de que a morte de um
indivíduo não significa a morte do poder. É essa convicção, cuidadosamente
encenada diante do mundo, que faz do funeral uma das mais sofisticadas formas
de linguagem política já produzidas pela História.
Há um equívoco recorrente na maneira como imaginamos o início
das guerras. A memória coletiva foi moldada por imagens de tanques cruzando
fronteiras, bombardeios espetaculares ou declarações formais de hostilidade.
Como se a guerra começasse apenas quando o primeiro disparo rompesse o
silêncio. A História Militar, contudo, ensina outra coisa: as grandes guerras
começam muito antes do primeiro tiro.
O recente relatório do Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos (IISS), segundo o qual a Rússia teria conduzido uma campanha
sistemática de incursões com drones sobre instalações estratégicas da Europa,
deve ser lido sob essa perspectiva. O aspecto mais interessante da notícia não
está nos drones em si, mas na natureza de sua missão. Não se tratava, ao que
tudo indica, de destruir alvos. Tratava-se de conhecê-los.
Há uma diferença decisiva entre atacar um inimigo e
estudá-lo. O ataque busca produzir dano; o reconhecimento busca produzir
conhecimento. E, desde a Antiguidade, conhecimento é uma das mais
importantes formas de poder militar.
Nos exércitos de Alexandre, de Aníbal ou de César, a
cavalaria, frequentemente, precedia o grosso das tropas. Sua função não era
vencer batalhas, mas descobrir o terreno, medir distâncias, localizar
obstáculos, avaliar a disposição do adversário e identificar seus pontos
vulneráveis. O combate começava pela observação. Antes da força, vinha a
inteligência.
Os drones
desempenham hoje uma função análoga, mas com uma vantagem extraordinária: podem
penetrar profundamente no território adversário sem expor soldados, sem
provocar grandes repercussões diplomáticas e, muitas vezes, sem sequer oferecer
um pretexto claro para uma resposta militar. São olhos voadores, persistentes e
baratos.
Se o relatório estiver correto, a Rússia não estava apenas
enviando pequenos aparelhos sobre bases aéreas, portos militares ou instalações
nucleares. Estava realizando algo muito mais sofisticado: um mapeamento da reação
ocidental. Quanto tempo leva para um radar detectar uma incursão? Quem toma a
decisão de responder? A informação circula com rapidez entre as diferentes
estruturas nacionais? Há coordenação entre governos e comandos militares? Em
que circunstâncias um drone é simplesmente observado e em quais ele passa a ser
considerado uma ameaça?
Cada voo torna-se um experimento. Cada incursão produz dados.
Cada resposta, ou ausência dela, converte-se em informação estratégica. Esse
talvez seja o aspecto mais inquietante da guerra contemporânea: ela já não
depende exclusivamente da destruição. Muitas vezes, basta medir. A informação
obtida hoje poderá definir a eficácia das operações de amanhã.
A guerra, nesse sentido, tornou-se cumulativa. Ela se
constrói lentamente, por camadas sucessivas de conhecimento. Quando os mísseis
finalmente são disparados, grande parte da batalha já foi travada no plano
invisível da coleta de informações.
Essa transformação revela também uma mudança mais profunda na
própria natureza do conflito. Durante séculos, reconhecimento e combate eram
atividades distintas, separadas no tempo e no espaço. Hoje, essa fronteira
praticamente desapareceu. Um simples drone que sobrevoa uma instalação militar
já está produzindo efeitos estratégicos, ainda que não transporte qualquer
explosivo.
Talvez estejamos presos a uma linguagem herdada do século XX,
incapaz de descrever adequadamente as guerras do século XXI. Continuamos
perguntando quando um conflito começa, como se houvesse um instante inaugural
claramente identificável. Mas as novas formas de enfrentamento dissolvem essa
certeza. Entre a paz e a guerra instala-se uma vasta zona cinzenta, onde
espionagem, sabotagem, pressão econômica, ataques cibernéticos, campanhas de
desinformação e operações de reconhecimento convivem sem que o mundo saiba
exatamente como nomeá-las.
É possível, portanto, que estejamos formulando a pergunta
errada. Talvez não devamos perguntar quando a próxima guerra começará. Talvez
ela já tenha começado.
A História oferece um alerta constante: as batalhas decisivas
raramente surpreendem aqueles que as prepararam durante anos. O verdadeiro
espanto costuma atingir apenas quem confundiu ausência de tiros com ausência de
guerra. Enquanto uns aguardam o estrondo dos canhões para reconhecer o
início do conflito, outros já percorrem silenciosamente o campo de batalha,
observando, medindo e aprendendo. E, na guerra, quem aprende primeiro costuma
lutar em vantagem.
*Nota: aos que desejam aprofundar o tema: KEEGAN, John. “Inteligência
na Guerra”. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
Tenho horror a viagens, viajantes e seus relatos. Meus
deslocamentos geográficos derivam de necessidades laborais. Estive, recentemente,
na antiga capital de uma possessão colonial ultramarina, Salvador. Sentado numa
mesa situada na área externa de um estabelecimento de venda de guloseimas, ouvi
trechos dos diálogos de dois frequentadores. Eram dois mequetrefes empertigados
e perfumados. Um deles disse, enquanto sorvia, lentamente, um líquido escuro de
uma xícara esmaltada:
- Sinto falta daqueles tempos em que tudo aqui eram dunas
brancas.
Ao ouvir aquilo, sacudi-me, como se, ao meu lado, tivesse
silvado uma cascavel. Levantei-me. Olhei em redor. Não encontrei horizonte, vi
apenas prédios altos.
Perguntei a mim mesmo: onde está a zona rural desta cidade?
Para onde foram os coqueirais, os brejos, as pequenas propriedades? Em que
momento Salvador cresceu tanto que conseguiu apagar a própria periferia rural?
Como pode uma cidade devorar o campo sem sequer perceber que o devorou?
Voltei para Feira de Santana trazendo comigo essas perguntas.
Talvez, porque também aqui estejamos vivendo esse mesmo processo, apenas
algumas décadas antes de seu desfecho. Durante muito tempo, imaginei que as
cidades simplesmente crescessem. Hoje, suspeito que elas façam outra coisa. As
cidades deslocam-se. Abandonam um lugar para ocupar outro. Não avançam como uma
árvore que estende seus galhos. Avançam como um exército em marcha. O curioso é
que todo exército deixa um campo devastado atrás de si.
Em Feira de Santana, a nova fronteira urbana parece mover-se
continuamente em direção ao Norte e ao Leste. Condomínios multiplicam-se. Novas
avenidas surgem. O mercado anuncia bairros que, poucos anos atrás, pertenciam
ao mundo rural. A cidade parece respirar apenas para essa direção. Mas, atrás
desse movimento, fica algo inquietante. Ficam bairros que, lentamente, perdem
habitantes. Casas fechadas. Comércios esvaziados. Ruas onde a presença humana
vai sendo substituída por portões enferrujados e placas de vende-se.
É como se a cidade produzisse desertos para poder continuar
avançando. A fronteira cresce. Mas o interior se esvazia. O novo não substitui
o antigo. Apenas o abandona. É justamente nessa linha móvel onde, hoje, se
encontra a Matinha dos Pretos.
Há uma ironia quase cruel nisso. Durante mais de um século,
aquele território permaneceu, relativamente, protegido, porque estava longe da
cidade. Hoje, ele passa a correr perigo exatamente porque a cidade decidiu
aproximar-se dele. A Matinha nasceu quando homens e mulheres negros
transformaram a fuga em permanência. O que começou como abrigo converteu-se em
território, memória e comunidade. A terra deixou de ser apenas chão; tornou-se
uma forma de recordar.
Agora, outra ocupação se aproxima. Muito mais silenciosa. Ela
não chega com soldados. Chega com arquitetos. Não traz espingardas. Traz folders coloridos. Não expulsa, valoriza.
E, talvez, essa seja a forma mais sofisticada de conquista já inventada pela
civilização. Porque ninguém precisa arrancar um povo de sua terra quando
consegue convencer esse povo de que a terra vale mais como mercadoria do que
como herança. Há, nisso, uma tragédia discreta. A mesma cidade que abandona
bairros inteiros continua procurando novos lugares para ocupar. Como se
estivesse, permanentemente, insatisfeita consigo mesma. Como um animal incapaz
de habitar o próprio corpo.
Talvez seja esse o destino de quase todas as grandes cidades:
caminhar, continuamente, para a frente, deixando, atrás de si, uma sucessão de
vazios. Se isso acontecer, um dia a fronteira urbana alcançará, definitivamente,
a Matinha.
E, então, talvez alguém, sentado na varanda de um condomínio
recém-inaugurado, diga, com a mesma melancolia daquele senhor de Salvador:
- Sinto falta do tempo em que tudo isso aqui era Matinha.
Mas já não haverá ninguém capaz de lhe contar o que realmente
existiu ali. Porque algumas perdas não acontecem quando as árvores são
derrubadas. Acontecem quando desaparece o último homem que ainda sabia seus
nomes.
Há uma ilusão persistente de que as guerras terminam quando cessam os tiros. Não terminam. O silêncio das armas apenas inaugura outra disputa, muitas vezes mais longa, mais profunda e mais decisiva: a batalha pela memória. É nela que se define quem será lembrado como herói, quem carregará para sempre a marca do criminoso, quais episódios serão exaltados e quais serão cuidadosamente esquecidos. Uma guerra só se completa quando uma narrativa consegue transformar um acontecimento em memória coletiva. A História está repleta de exemplos. O campo de batalha produz mortos; a memória produz sentidos.
Recentemente, uma reportagem chamou a atenção para uma gravura produzida poucas semanas após o chamado Massacre de Boston, em 1770. A imagem mostrava soldados britânicos disparando friamente contra colonos americanos indefesos, em uma composição cuidadosamente planejada para despertar indignação. Mais tarde, investigações demonstrariam que os acontecimentos haviam sido muito mais complexos do que aquela representação sugeria. Mas isso já não importava. A gravura havia cumprido sua missão: moldar a forma como gerações inteiras compreenderiam aquele episódio.
Essa talvez seja uma das maiores lições da história militar: os fatos não chegam até nós em estado bruto. Eles atravessam discursos, imagens, monumentos, livros escolares, filmes, discursos políticos e comemorações nacionais. O passado não é apenas lembrado; ele é continuamente reconstruído. Toda sociedade escolhe aquilo que deseja recordar. E, inevitavelmente, também escolhe aquilo que prefere esquecer.
Por isso, nenhuma guerra é apenas um confronto entre exércitos. Ela é também uma disputa entre versões. Enquanto soldados ocupam cidades, cronistas ocupam consciências. Enquanto generais planejam campanhas, artistas, jornalistas e escritores começam a definir qual será o significado daqueles combates para o futuro.
Talvez seja por isso que os vencedores sempre tenham se preocupado tanto com monumentos, memoriais e celebrações. Não basta conquistar territórios. É preciso conquistar a interpretação da conquista.
Na Antiguidade, Homero fez isso ao transformar a Guerra de Troia em epopeia. Roma fez o mesmo quando Virgílio converteu derrotas, sofrimentos e conquistas em fundamento simbólico de um império. Ao longo dos séculos, impérios, revoluções e nações compreenderam que a permanência de uma vitória depende menos da força das armas do que da força das narrativas.
Vivemos, entretanto, uma época em que essa segunda guerra se tornou ainda mais veloz. Se antes uma gravura levava semanas para circular, hoje uma fotografia, um vídeo de poucos segundos ou uma postagem nas redes sociais atravessam continentes em minutos. A batalha pela memória começa enquanto a batalha militar ainda está em andamento.
Nunca produzimos tantas imagens. Nunca disputamos tanto o significado delas. É por isso que guerras contemporâneas são travadas simultaneamente em trincheiras, satélites, redações, estúdios de televisão e plataformas digitais. A vitória militar continua importante, mas já não basta. Quem perde o controle da narrativa frequentemente descobre que pode vencer no terreno e, ainda assim, ser derrotado na história.
No fim, as armas decidem quem permanece de pé. A memória decide quem permanecerá de pé diante das gerações futuras. E essa costuma ser a vitória mais duradoura.
* Nota: Para aprofundar o tema do Massacre de Boston - episódio fundamental para compreender o imaginário da independência norte-americana - sugiro: ELLIS, Joseph. A Causa. A revolução Americana e suas Divergências. LVM Editora, 2025