Pai de Dazio Brasileiro Filho, conceituado empresário do comércio feirense, e com o mesmo nome dele, Dazio Brasileiro foi um atuante caixeiro viajante, a exemplo do genitor, Antônio Crisóstemo Brasileiro. Como funcionário público, destacou-se em Feira de Santana, depois de rápida atuação no comércio, como eficiente dirigente do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários (IAPC). Um homem de bem, batizado com o incomum nome Dazio, que é topônimo de uma minúscula cidade italiana da Lombardia.
Os tempos eram outros, e o exercício de algumas atividades
exigia verdadeiro sacrifício, que talvez não fosse assim dimensionado, já que
não haveria outra forma de executá-las. O comércio, indispensável à sociedade
humana, era uma dessas atividades. Os representantes comerciais, conhecidos
como caixeiros viajantes, eram verdadeiros desbravadores, assim como vaqueiros,
tropeiros e outros trabalhadores de atuação itinerante. O asfalto não fazia
parte do cenário nordestino, tampouco os carros, que ainda eram raridades.
Cavalos, mulas e burros eram os “veículos” disponíveis e só através deles as
novidades das grandes cidades, até mesmo da longínqua Europa, poderiam chegar
ao sertão baiano.
Foram muitos os caixeiros viajantes que mourejaram na região
de Feira de Santana, na época mais referenciada como região de Cachoeira, polo
dominante desde o Recôncavo até a entrada do sertão. Dazio Brasileiro foi um
desses viajantes que marcaram sua existência pelo trabalho com uma tropa de
burros, vendendo mercadorias e fazendo amigos por onde passava. Filho de
Antônio Crisóstemo Brasileiro e Timóclea de Carvalho Brasileiro, a partir de
Amargosa, sua terra natal, ele começou a vida muito jovem e, fiel ao popular
adágio “filho de peixe, peixinho é”, seguiu a trajetória de Tote Brasileiro,
como era conhecido seu genitor em vasta faixa do interior da Bahia.
Com uma tropa de oito a 10 animais — mulas e burros —, saía
de Cachoeira com as mercadorias trazidas de Salvador em um vapor e ganhava as
tortuosas estradas de barro, que, no período chuvoso, viravam lamaçais.
Naturalmente, não ia só; um cozinheiro e mais dois ou três homens integravam a
caravana, para cuidar dos animais e efetuar o necessário descarrego e carrego
das mercadorias nas localidades onde paravam. Peças de tecidos e o mostruário,
além de alimentos devidamente calculados para os dias de viagem, não podiam
faltar.
Dazio Brasileiro cumpria um ritual a cada viagem, que
demorava um mês ou até mais. Hospedava-se em um hotel e demorava em média três
dias, tempo disponibilizado para visitar os clientes, apresentar as mercadorias
mediante os mostruários e fazer os pedidos. Interessante era o processo, nada
convencional em relação aos dias atuais. Bem trajado, como ditava a época,
barbeado, de terno completo, gravata e chapéu, ele visitava os comerciantes no
primeiro dia na cidade. No segundo dia, a visita era retribuída na pensão pelo
cliente, e, no terceiro dia, ele retornava à loja, quando o negócio era
oficializado com a efetuação do pedido de compra dos artigos de interesse do
lojista.
Um mês depois, Dazio Brasileiro retornava a Cachoeira e dali
para Salvador, onde era feito o relatório de viagem e apresentada a lista de
pedidos, que eram remetidos para os compradores através de outra tropa, que
fazia o serviço de entrega. Dazio Brasileiro trabalhou como caixeiro viajante
durante cerca de 20 anos, afastando-se em 1926, quando se tornou funcionário
público federal da estrada de ferro em Nazaré, transferindo-se depois para
Salvador, onde foi nomeado fiscal federal do Instituto de Aposentadoria e
Pensão dos Comerciários (IAPC). Logo após, foi designado para dirigir a agência
do órgão em Nazaré, cidade do Recôncavo, de onde pediu transferência para a
agência de Feira de Santana, localizada na Avenida Senhor dos Passos.
Nesta cidade, Dazio Brasileiro fez grandes amizades e ocupou
cargos diretivos importantes na Loja Maçônica Luz e Fraternidade, no Feira
Tênis Clube e na Associação Comercial, com uma rápida passagem pelo comércio
como fundador da Fábrica de Balas Cometa. Homem educado, que gostava da leitura
e do charadismo, ele lembrava com satisfação o trabalho como caixeiro viajante,
rememorando as dificuldades e as boas amizades construídas. Faleceu nesta
cidade aos 91 anos, em 4 de janeiro de 1986. O mesmo amor à atividade comercial
é demonstrado nesta cidade pelo conceituado empresário Dazio Brasileiro Filho.
*Zadir Marques Porto é jornalista. A coluna Feira em História, assinada por ele, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade de Feira de Santana.